exposição acrexiste


acrexiste porque Acre existe. A própria negação brincalhona, popular nos centros urbanos do Brasil, faz do Acre um lugar com características quase míticas. O nome é suficiente para evocar as cores do mato, o cheiro da terra úmida, os dilúvios amazônicos da estação chuvosa e o sol aquecendo sem piedade na época da seca. Nesse nome se inscrevem as pessoas que encontramos lá, com uma densidade e riqueza de histórias de vida que é difícil de representar.


Acre é um lugar onde se misturam todos os rostos, uma terra de desterrados: imigrantes de todos os cantos do país que, daquela terra vermelha, arrancam a vida arduamente, lidando com uma natureza que sempre nutre com os frutos da terra, mas que às vezes também é hostil. A escassez de água durante a seca, a malária que reaparece na estação de chuva; é assim que o acreano existe, sobrevive, numa dialética interminável com a natureza.


Cada casa de madeira, cada roça cultivada -- café, mamão, abacaxi, mandioca, banana -- conta uma história, uma luta diferente. A escola rural construída em madeira, como síntese, contêm as essências culturais daquele lugar, misturadas com os conteúdos de um outro Brasil urbano, evidenciando um ponto de fratura entre esses dois Brasis que na verdade são um só. É uma escola onde a criançada assiste a aulas de português, geografia, ou história. Mas a integração com o outro Brasil talvez esteja mais relacionada com a típica mistura de gritaria, entusiasmo e tédio de todas as crianças, do que com os conteúdos, que parecem abstrações impossíveis naquele lugar distante. Essa escola é uma das tantas testemunhas dessa descontinuidade, do fragmento afastado até a quase inexistência (na brincadeira?).


É admirável e comovente a vontade dessas pessoas de cuidar de um futuro que às vezes parece que os abandona... mesmo assim, continuam contando histórias, conversando, construindo, às vezes jogando bola, extraindo látex das seringueiras ou cozinhando a mandioca nas casas de farinha... enfrentando a malária que vai e volta... porque, sem dúvida, eles estão num lugar que existe por força própria.


Alessandra Fratus, bióloga e fotógrafa, consegue enxergar as luzes do Acre e os seus habitantes com a sensibilidade pouco usual de quem se interessa pela abordagem da alteridade desde a dimensão humana, científica, e claro, também estética.O olhar da Alessandra, o que nos mostram suas fotos, não é algo ingênuo nem condescendente; pelo contrário, é complexo e permite a cada um que as olha enxergar planos diferentes. Um varal em que as cores urbanas das roupas lavadas à mão contrastam com as cores amazônicas é um pequeno exemplo de como, na fotografia da Alê, a realidade não se deixa simplificar.


Não é exagero dizer que ela conseguiu captar, em imagens, aquilo que muitos de nós temos dificuldades para colocar em palavras.

- Ariel M. Silber | 8.2013

exposição acrexiste












FOTOS: Alessandra Fratus
TEXTO: Ariel Mariano Silber
CURADORIA: Marcelo Urbano Ferreira
PRODUÇÃO E MONTAGEM: José Renato Souza

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